Introdução ao Sistema Teofrástico
Olá, pessoal, tudo bem com vocês? Aqui é Simão Sussa, e eu gostaria de falar um pouco sobre o que vim adivinhando do sistema de pensamento do Teofrasto, o meu mestre. Até agora sinto que entendi pouco, mas tem algo importante. Parece que Teofrasto via o mundo dividido em 3 aspectos: o mundo natural, o mundo cultural e o mundo absoluto. Eu já antecipo que na maior parte do tempo nós nos concentramos no mundo cultural, e é disso que nasce, eu imagino, boa parte das questões que tratarei no canal.
O mundo natural é o mundo dos fatos concretos. Tudo o que acontece, acontece de fato. Se é um fato, é uma verdade por si mesmo. Pelo pensamento, ou seja, pelo mundo cultural, é possível duvidar da existência dos fatos: você pode duvidar que o mundo existe, que você existe, pode achar que só você existe e tudo o mais é imaginação da sua cabeça, mas tudo isso só pode surgir na etapa do mundo cultural. Para um animal nada disso faz sentido: as coisas existem, e ele as usa para sobreviver.
Num primeiro momento é preciso abstrair toda a possibilidade de pensamento para retomar a essas verdades mais simples. Se elas não fossem possíveis, menos ainda seriam todas as questões postas pela mente, isto é, pelo mundo cultural. Podemos lidar com essas questões culturais que mencionei, mas em outro momento. Pois bem, já falei que o mundo natural é o dessas verdades mais imediatas. O mundo cultural é todo o conhecimento humano que ultrapassa sua condição natural, isto é, é a artificialidade.
Por exemplo: de todos os fatos que acontecem você só vai saber uma fração ínfima. E, dessa fração, terá certeza de uma parte ainda menor. Os fatos acontecem, e isso é verdade, mas, uma vez acontecidos, para retomar é preciso memória, se aconteceram com você. Se não aconteceram com você, é preciso relato. Ambos os casos já entram dentro do mundo cultural, isto é, existem os fatos concretos, mas entra em jogo a mediação humana para tentar retomá-los.
Nisso podem acontecer faltas, sobreposições, pode-se contar sem saber qual era a parte mais importante do fato etcétera. Espero não estar complicando muito para vocês. É algo como a brincadeira do telefone sem fio: existe a mensagem inicial, que é um fato, então mundo natural, mas entre a passagem de uma pessoa a outra pode haver a danificação e até a perda dessa mensagem. Muito bem, então o mundo cultural é tudo aquilo que construímos, é a memória da condição de Humanidade.
O Teofrasto via no mundo cultural absolutamente tudo, a linguagem em sentido amplo. Desde a retomada da memória pessoal pela narração, os vários idiomas, as várias artes - a catedral de Chartres, o Taj Mahal, o Pavilhão Dourado, A Ilíada e a Divina Comédia, Salvador Dalí e Tarsila do Amaral. As casas-grandes e os casebres de pau a pique. A História, as grandes filosofias da história, e as ciências. De Aristóteles e Ptolomeu a Copérnico, destes a Newton, dele a Einstein, a verdade cultural muda.
E porque muda, dizemos que não há verdade absoluta. Tanto esta questão quanto todas as demais questões que nos fazemos, percebam, vem da linguagem. Se vem da linguagem, são parte do mundo cultural. Sobretudo em épocas em que uma cultura estava ficando estável e, de repente, se vê abalada por novas ideias, existe o acréscimo das confusões culturais. Nisto, nasce a descrença da verdade absoluta, ou o ceticismo. Percebam que tudo isso está no mundo cultural. Nada disso existe para um bichinho.
Teofrasto era um profundo admirador da Humanidade, não no sentido coletivo, mas da característica em nós que permite, inclusive, duvidar de tudo e até de que existimos, mesmo naturalmente existindo. Para um bichinho existe matar ou morrer, existem construções, conforme a sua espécie, e tudo isso para ele é obviamente verdade absoluta: se não fosse, ele nunca se mexeria. Mas nós, olha que coisa, podemos gastar horas e horas colocando o mundo natural em dúvida, e, pior, nunca sem motivo pessoal.
Não por acaso Teofrasto era um terapeuta. Mas vamos voltar ao assunto. Existe um fato secreto em todo o mundo cultural. Esse fato é: todas as verdades culturais, todas, são verdades incompletas. Isto se sabe, e é disso que se acusa quando se diz que não há verdade absoluta. Mas as verdades culturais funcionam suficientemente, seja pelo motivo psicológico que as gerou, seja pela previsão que geram do mundo. As ciências exatas são confiadas por causa disso.
Sabemos que são incompletas. Mas a previsão dos fatos nos mostra que apontam para algo verdadeiro. Do mesmo modo, todo relato sério, de memória ou da História, tenta apontar para fatos. Em suma, descrevem o mundo natural e seu funcionamento. Sem o mundo cultural, seríamos apenas bichinhos. Com ele, podemos ter a pretensão de nos tornarmos senhores da natureza, de dominarmos as leis do funcionamento de todo o universo, do macro ao micro, passando pelos humanos uns com os outros. Isso é bom. E ruim. Mas por agora não importa.
O que importa agora é que essa percepção dessa verdade secreta nos revela um mundo de verdades absolutas que englobam as verdades. Este conhecimento perfeito, do qual o nosso é um fragmento de espelho, é o mundo absoluto. Que ele existe os fatos provam, que é humanamente compreensível o mundo cultural demonstra. O mundo absoluto é o mundo das fórmulas finais do mundo cultural, e dos fatos do mundo natural. É uma antevisão dele que nos faz saltar de uma hipótese para outra que parecerá melhor.
Mas Simão eu não estou entendendo nada. Em resumo: todas as verdade são testemunhas de uma verdade maior e total que as engloba. É só. Não precisa entender o que eu estou falando agora. Este é um dos traços do sistema do Teofrasto, e, como eu falei no primeiro vídeo, o que farei aqui é tentar responder a perguntas. Se apresento estas informações é só para dar uma ideia geral de como é feita essa transição, que, nas respostas, aparecerá diluída. Não sei vocês, mas eu acho isso muito interessante.
Por hoje eu já falei demais. Na descrição deste vídeo, assim que der, colocarei mais informações sobre o que venho descobrindo do sistema do Teofrasto que complemente esses pontos que coloquei aqui. Se gostaram, curtam e compartilhem. Se ficaram curiosos, comentem pontos, dúvidas, ou mesmo tentem refutar o que falei. Assim crescemos juntos. Até mais.
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